segunda-feira, 8 de abril de 2013

José


José está a fumar um cigarro na janela do apartamento apertado. Apartamento alugado. Nada ali lhe pertence, apenas o cigarro. José se senta no sofá velho, dá um trago, pega seu pequeno caderno e se põe a escrever novamente.
Maria sai do banho, pergunta a Zé o que está a escrever. Zé responde que está a escrever sobre dor. Ele sempre escreve sobre dor. Sempre com um cigarro, no apartamento apertado, apartamento alugado, que não lhe pertence. Nada lhe pertence. Maria, curiosa, pergunta porque seu homem sempre escreve sobre dor. Nunca vira Zé escrever sobre amor, flores ou dias ensolarados. Nada lhe pertence. Maria, enrolada na toalha pega o cigarro do homem no sofá, vai até a janela e fuma, ali, banhada pela noite.
Um Zé, aflito, tristonho, que nada tem, responde à Maria: “Só posso escrever sobre o que conheço.”

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