sábado, 20 de abril de 2013

Obrigada por fumar



 Todo fumante vive um certo dilema em sua vida: parar com esse prazer quase proibido ou se entregar completamente à tentação?  Devo dizer que me sinto até envergonhada quando acendo um cigarro na rua, vou explicar o por quê:
Todos sabemos que o cigarro é nocivo à saúde, que faz muito mal. Porém é um prazer maravilhoso, traz uma calma inexplicável e em momentos de tensão um cigarrinho pode fazer milagres, pelo menos essa é a minha experiência. Mas fumar me causa uma vergonha do tamanho da cara de pau de certos políticos. Por exemplo: todo dia, quando vou comprar meu cigarro, pela manhã, ouço um homem no bar falar: “Uma menina tão nova fumando, pára com isso” e solta um risinho. Porém este indivíduo está sempre tomando uma cerveja. Várias vezes pensei em falar: “Um senhor tão barrigudo bebendo cerveja todo dia logo de manha, pára com isso” e dar-lhe um tapinha amigável nas costas.
Inúmeras vezes fui parada por senhorinhas nas ruas, todas falando que meninas jovens não deveriam fumar. Meus pais, fumantes, diga-se de passagem, dizem que sou jovem e bonita para fumar. Minha irmã fala que meus dentes vão ficar amarelos. Eu não posso deixar de me perguntar: eles acham que eu não sei os malefícios do cigarro? Afinal, eles vêm estampados de maneira bastante assustadora na caixinha ou no maço. Mesmo assim minha única reação quando ouço qualquer comentário do tipo é pedir desculpas, mesmo sabendo que não deveria.
Quando vejo alguém bebendo, não vou lá azucrinar falando que aquilo poderá, eventualmente causar um estrago em seu lindo fígado. Quando vejo alguém comendo fritura não falo nada sobre os malefícios da gordura saturada e quando vejo alguém fumando um baseado certamente não vou encher a paciência falando como aquilo pode acabar com seu pequeno cérebro. Chega de perseguir os fumantes. A partir de hoje deixo claro: nada mais de me desculpar por fumar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

José - parte 2


Maria acorda cedo para trabalhar. José lhe dá um beijo estalado enquanto pega seu café fresco na bancada da cozinha que é também a sala. Ela pergunta se Zé vai voltar a procurar empregos hoje, ele, desanimado, responde que talvez sim. Zé não vai procurar emprego.
Maria sai já atrasada para pegar o ônibus que demora a passar e Zé, como de costume, se põe a escrever seu romance. Nada de procurar empregos hoje. Zé não quer mais ser jornalista, como a mulher, ele quer ser um grande escritor. Acende um cigarro enquanto relê o que já está escrito no caderno pequeno. Pega sua maquina de escrever e transforma as anotações em uma história.
 Zé já tem o seu trabalho, ele não quer ser mais um empregado. Ele sabe, dentro de si, que pode ser muito mais do que isso. Seria essa crença pura pretensão? Não se sabe. Zé tem uma certeza: nada de procurar emprego hoje.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Recebendo velhos amigos


Há tempos não recebia a visita de duas velhas amigas. Admito que não senti falta delas por um instante sequer. Não são as amigas mais queridas, apesar de serem, estranhamente, chamadas assim. Porém me fazem companhia. Fizeram por muito tempo e agora parece que voltaram para mostrar que não esqueceram de mim. Que sorte a minha.
Apresento-lhes a Insônia e a Confusão. Elas são daquelas que quando passo pela rua até troco de calçada, só para evitar um simples oi. É muito desgaste. Agora, não só me encontro dando oi como dando abraços, beijos e ouvindo tudo que lhes aconteceu no tempo que aparentemente estive ausente de suas vidas e elas da minha. É uma situação um tanto desconfortável essa que me encontro, não gosto ou simpatizo com nenhuma das duas, mas parece que elas não querem largar de mim. E o pior: uma delas é daquelas que fala alto, barulhenta, a Confusão, ela grita no meu ouvido incessantemente. Gostaria que ela parasse de falar.
A Insônia é silenciosa, mas não me deixa dormir. Ela é dessas inconvenientes, que nos deixa a noite inteira acordados quando temos um dia cheio à nossa frente. Ela parece entrar na minha casa toda noite, para bater um papo aparentemente inocente, mas que mexe com a minha cabeça e então o estrago está feito: lá se vai mais uma noite de sono.
Duas velhas amizades que não sei se gosto, a Confusão, com todo seu barulho e a Insônia, com seu silêncio perturbador. Não posso expulsá-las, seria grosseria da minha parte. Então o que fazer com essas velhas amizades? Parece que vou ter que esperá-las tomar seus caminhos, até que decidam voltar de novo. Até lá vou viver com outro conhecido meu, o Medo. 

Guia prático para lidar com a tristeza



  •        Nunca, em hipótese alguma, escutar Bob Dylan;
  •        Passar batom vermelho, arrumar o cabelo e sair para a rua. Quando algum homem desagradável mandar uma cantada, mandar o dedo do meio, sem dó nem piedade;
  •        Tomar um bom café com leite gelado/cappuccino com chantilly;
  •        Comprar um livro novo e cheirá-lo como se não houvesse amanhã;
  •        Pintar as unhas com esmalte de glitter (o mais brega possível);
  •        Rezar para que chova, assim você poderá passar a noite tomando um bom chá;
  •        Comer algo gordo sem culpa;
  •        Escutar heavy metal;
  •        Lembrar que Kit Kat’s existem;
  •        Falar que ama alguém;
  •        Fazer seu próprio guia prático para lidar com a tristeza.