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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Leila





Leila ouve o barulho do que parece ser uma máquina de escrever. Clec, clec, clec. Ela anda até a janela, deve ser aquele vizinho que vive com cara de constipado. Aquele pobre diabo com cara de infeliz.
Leila se deita na cama grande. Cama grande para um apartamento pequeno. Leila não liga, ela está em um bairro nobre. Ela é uma mulher fina. Usa roupas caras e sapatos altos em ruas de paralelepípedos. Uma senhora de classe com nada além de roupas. Nada além de uma cama grande na zona sul carioca.
Leila se põe a ler a revista de celebridades na cama grande, pensando em como seria sua vida se algum dia fosse descoberta. Ela seria uma grande atriz. Por enquanto ela é roupas e sapatos caros jogados dentro de um guarda roupas de segunda em um apartamento pequeno na zona sul carioca.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

José - parte 2


Maria acorda cedo para trabalhar. José lhe dá um beijo estalado enquanto pega seu café fresco na bancada da cozinha que é também a sala. Ela pergunta se Zé vai voltar a procurar empregos hoje, ele, desanimado, responde que talvez sim. Zé não vai procurar emprego.
Maria sai já atrasada para pegar o ônibus que demora a passar e Zé, como de costume, se põe a escrever seu romance. Nada de procurar empregos hoje. Zé não quer mais ser jornalista, como a mulher, ele quer ser um grande escritor. Acende um cigarro enquanto relê o que já está escrito no caderno pequeno. Pega sua maquina de escrever e transforma as anotações em uma história.
 Zé já tem o seu trabalho, ele não quer ser mais um empregado. Ele sabe, dentro de si, que pode ser muito mais do que isso. Seria essa crença pura pretensão? Não se sabe. Zé tem uma certeza: nada de procurar emprego hoje.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Carol


Carol tem dezessete anos. Ela fuma um baseado no apartamento do namorado drogado, namorado todo errado, de acordo com seus pais. Da janela ela vê o Cristo. Aquilo não parece tão errado. Naquele momento ela não se sente tão sozinha. Aquilo, também, não parece tão errado. O fato do namorado ser uma pessoa um tanto desprezível parece não fazer uma grande diferença.
Para os amigos Carol é muito madura para a idade. Para os pais é uma criança fazendo más escolhas. Dá um dois na janela, o Cristo está iluminado, o dia está bonito. O namorado todo errado jogado na cama. Ele é desprezível. Mas ela não se sente tão sozinha.
O cheiro de comida caseira invade o apartamento pequeno. De repente Carol sente falta de casa. Ela se sente sozinha novamente.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

José


José está a fumar um cigarro na janela do apartamento apertado. Apartamento alugado. Nada ali lhe pertence, apenas o cigarro. José se senta no sofá velho, dá um trago, pega seu pequeno caderno e se põe a escrever novamente.
Maria sai do banho, pergunta a Zé o que está a escrever. Zé responde que está a escrever sobre dor. Ele sempre escreve sobre dor. Sempre com um cigarro, no apartamento apertado, apartamento alugado, que não lhe pertence. Nada lhe pertence. Maria, curiosa, pergunta porque seu homem sempre escreve sobre dor. Nunca vira Zé escrever sobre amor, flores ou dias ensolarados. Nada lhe pertence. Maria, enrolada na toalha pega o cigarro do homem no sofá, vai até a janela e fuma, ali, banhada pela noite.
Um Zé, aflito, tristonho, que nada tem, responde à Maria: “Só posso escrever sobre o que conheço.”