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sexta-feira, 19 de abril de 2013

José - parte 2


Maria acorda cedo para trabalhar. José lhe dá um beijo estalado enquanto pega seu café fresco na bancada da cozinha que é também a sala. Ela pergunta se Zé vai voltar a procurar empregos hoje, ele, desanimado, responde que talvez sim. Zé não vai procurar emprego.
Maria sai já atrasada para pegar o ônibus que demora a passar e Zé, como de costume, se põe a escrever seu romance. Nada de procurar empregos hoje. Zé não quer mais ser jornalista, como a mulher, ele quer ser um grande escritor. Acende um cigarro enquanto relê o que já está escrito no caderno pequeno. Pega sua maquina de escrever e transforma as anotações em uma história.
 Zé já tem o seu trabalho, ele não quer ser mais um empregado. Ele sabe, dentro de si, que pode ser muito mais do que isso. Seria essa crença pura pretensão? Não se sabe. Zé tem uma certeza: nada de procurar emprego hoje.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

José


José está a fumar um cigarro na janela do apartamento apertado. Apartamento alugado. Nada ali lhe pertence, apenas o cigarro. José se senta no sofá velho, dá um trago, pega seu pequeno caderno e se põe a escrever novamente.
Maria sai do banho, pergunta a Zé o que está a escrever. Zé responde que está a escrever sobre dor. Ele sempre escreve sobre dor. Sempre com um cigarro, no apartamento apertado, apartamento alugado, que não lhe pertence. Nada lhe pertence. Maria, curiosa, pergunta porque seu homem sempre escreve sobre dor. Nunca vira Zé escrever sobre amor, flores ou dias ensolarados. Nada lhe pertence. Maria, enrolada na toalha pega o cigarro do homem no sofá, vai até a janela e fuma, ali, banhada pela noite.
Um Zé, aflito, tristonho, que nada tem, responde à Maria: “Só posso escrever sobre o que conheço.”