segunda-feira, 20 de maio de 2013

Diário de notas sem texto

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17 de maio de 2013 – 2:15 da manhã
As pálpebras pesadas incomodam bastante, pois quero dormir e não consigo. A doce terra dos sonhos parece distante. Esse é o momento de me explicar melhor.
Toda a minha personalidade consiste em ser mais uma pobre jovem rica, perdida em suas pretensões e com a insistente mania de ser pouco realista, apesar de extremamente crítica. Começo a escrever essas notas despida de personagens. Aqui represento a mim mesma, perdida nos meus quase vinte anos e no, ouso dizer, inferno de ser jovem nessa geração. Não pretendo mentir nas notas que se seguem, o que eventualmente pode acontecer, então começo contando uma verdade vergonhosa: tenho o sonho secreto de ser uma voz da geração que tanto afirmo detestar. Como já disse, aqui não sou nenhum personagem e me atrevo a escrever à mão em uma folha sem linhas.
Como a maioria da minha idade sonho com uma carreira financeiramente inviável, o que desagrada secretamente meus pais. Quero escrever livros, eles querem que eu seja jornalista. A faculdade não está nos meus planos, mas o que não fazemos por amor? A convivência, por outro lado é quase uma missão impossível. A matemática é simples e a realidade complicada.
Aprendi quando pequena que não é de bom tom falar muito sobre si, então apesar de escrever notas completamente biográficas e um blog, vou fingir ser um exemplo de etiqueta e parar antes de me tornar rude.

domingo, 19 de maio de 2013

Feira das Vaidades



Leblon, bairro da zona sul carioca, parte nobre da cidade. Onde as pessoas são bonitas demais e tudo parece ser caro. Sonho de consumo de 9 entre 10 cariocas, brasileiros até. Lugar que me causa certo medo.
No final de semana combinei com uma querida amiga de ir ao shopping do bairro. O melhor shopping da cidade na minha opinião, o antro da perdição dos gastadores descontrolados como eu. Vou lançar meu primeiro livro e o figurino da noite não pode ser nada menos que incrível. Sou mulher, acho que a paixão por roupas está mais fundo no meu ser do que imagino.
Em uma das lojas caras demais, no provador pomposo demais, ouço de intrometida uma conversa entre duas amigas, como fui perceber mais tarde à muito contragosto, não muito diferentes de mim e minhas próprias amigas. As duas falavam o seguinte:
-       Amiga, achei uma saia com uma preço ótimo na loja X
-       Jura? Quanto estava?
-       Acho que estava 2 vezes um número de três dígitos ímpar
-       Nossa, realmente muito barato! Vamos lá depois
Minha reação imediata foi conferir a etiqueta da saia que a vendedora da loja pomposa tão gentilmente me entregou prometendo que iria “causar” no evento. Ela custava o mesmo valor que as duas amigas do provador ao lado afirmavam ser um preço ótimo. Era quase o valor de um salário mínimo. Admito que na hora não dei muita importância, afinal minha cabeça estava mesmo em achar a roupa perfeita para o dia do evento.
Três lojas depois achei o tal vestido, este, como eu disse para minha querida amiga, estava “com um preço maravilhoso”. Mentira, estava nada. Passei o pedacinho de plástico na maquina mágica e lá fui eu, me sentindo uma nova pessoa, com mais uma roupa para jogar no guarda roupa abarrotado.
Não estou aqui para criticar a indústria da moda, pois a admiro imensamente. O que me intriga é como gastar dinheiro com mais e mais roupas ou sapatos que não precisamos nos dá uma sensação de validez completamente falsa. Quanto mais cara a saia, o vestido, a jaqueta, ou qualquer outra roupa melhor eu sou do que o amiguinho, é isso? Quanto mais eu tenho mais eu valho? E desde quando o valor de um salario mínimo é um preço ótimo em uma minissaia?
Eu estou ficando louca ou realmente vivemos em uma feira das vaidades?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Margarita Virgem



Depois de um longo hiato para clarear a mente e sem muitas ideia mais claras, cá estou novamente. Em uma noite de segunda feira bem típica, quando já achava que depois de uma longa semana tinha me tornado uma escritora do Não, com uma síndrome de Bartleby de matar, lembrei-me de um acontecimento do meu sempre animado final de semana. Lá se foi a síndrome de Bartleby.
Eis que estou em uma sexta à noite em um restaurante mexicano com Mariachis e tequileiros, no aniversário de uma querida amiga que já foi coagida a fugir para São Paulo comigo, história de outras crônicas. Eu me encontrava solitária em meu hiato, pedindo aos deuses do teclado que algo extraordinário acontecesse para que a tal pausa mental finalmente chegasse ao fim. Depois de encher a cara de comida apimentada demais para minha própria segurança e bem estar engatei uma conversa que tinha a ver com rótulos e liberdade para ser o que quisermos ser. Mais uma revolta pseudo libertina e idealista sobre como todos deveriam se comportar.
Quando a conversa chegou ao fim e todos que participavam desta partiam para novas revoltas, como o “quadradinho de oito” e como o funk não se encaixa na categoria de cultura popular (esta última discordei fortemente), decidi fazer uma extravagância e pedir uma Margarita virgem. Enquanto bebericava o drink sem álcool algo me veio à cabeça: por que comecei com esse hiato? A pergunta resistiu ao dia das mães e a um resfriado sem que eu conseguisse respondê-la. Abatida e de cama por causa do resfriado que parece ter saído das profundezas do inferno me dei conta que tudo começou quando decidi seguir um conselho. Minha avó sempre me disse: “Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia.”. Esta se provou a mais pura verdade.
Segui o tal conselho, que foi dar um tempo na escrita para clarear as ideias. Depois de uma semana e com minhas faculdades mentais mais confusas do que nunca, concluí o obvio: não preciso dar um tempo de escrever, preciso é escrever para dar um tempo. Escrever é bom, não escrever é que me deixa louca e acaba resultando até em doenças, como o tal resfriado que parece não ter fim. Não tenho síndrome de Bartleby, minha síndrome ainda não tem nome e até onde pesquisei não foi catalogada pela OMS.
Um hiato serve para quando não temos ideia, e eu, até começar com essa história, tinha muitas. Escrever não vem de um lampejo divino onde mil ideia caem em nossas cabeças, mas sim de trabalho. Quanto mais se escreve mais se têm a escrever. Comigo funciona dessa maneira, poucas vezes fui agraciada por tal lampejo divino. Escrever não funciona com hiatos, é preciso se manter ativo, não importa quantas débeis catarses  possam vir pelo caminho.
Querido amigo que me deu o conselho maldito: não  sei escrever com a mente clara, só escrevo com minhas ideias completamente desgovernadas, pois essa foi a maneira que encontrei de domá-las. Se alguém se encontra em um hiato recomendo altamente a combinação Mariachis e drinks sem álcool,  um pouco de revoltas sem sentido e infelicidades crônicas podem ajudar, mas a Margarita virgem foi a responsável por desencadear o processo de completa desordem mental e consequentemente uma crônica para organizar a cabeça sempre desorganizada.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Leila





Leila ouve o barulho do que parece ser uma máquina de escrever. Clec, clec, clec. Ela anda até a janela, deve ser aquele vizinho que vive com cara de constipado. Aquele pobre diabo com cara de infeliz.
Leila se deita na cama grande. Cama grande para um apartamento pequeno. Leila não liga, ela está em um bairro nobre. Ela é uma mulher fina. Usa roupas caras e sapatos altos em ruas de paralelepípedos. Uma senhora de classe com nada além de roupas. Nada além de uma cama grande na zona sul carioca.
Leila se põe a ler a revista de celebridades na cama grande, pensando em como seria sua vida se algum dia fosse descoberta. Ela seria uma grande atriz. Por enquanto ela é roupas e sapatos caros jogados dentro de um guarda roupas de segunda em um apartamento pequeno na zona sul carioca.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Débil catarse




Críticas: não sei recebê-las porém adoro fazê-las. Não sei se este é o mal de todo jovem ou de todas as pessoas, independente da idade. Venho me descobrindo um Pavão, basta um elogio que abro minhas belas penas coloridas. Porém se me criticarem fico com a aparência de um pombo mal amado, jogado na sarjeta, recém atropelado. Já me falaram que elogios e críticas são a mesma coisa, mas sinto informar-lhes: eles não são, em definitivo, a mesma coisa.
Lá estava uma pequena Mariana, animada, em um churrasco com minha nova família, atualizando freneticamente o e-mail pelo querido iPhone. Um e-mail me chama a atenção, eu o abro e lá está: uma crônica minha fora publicada em um jornal muito intelectualizado que gosto muito. Pulei de alegria, dancei funk e comi mais carne do que meu corpo permitia naquele momento. Tudo eram flores.
No dia seguinte acordei cedo, animada para ver como o desabafo que tinha escrito em um dia de fúria ficou no site. Abri a página lentamente, saboreando cada segundo daquela conquista. Como uma escritora jovem e ainda aprendendo, sempre que algo é publicado sinto que todo o trabalho duro está sendo recompensado. E lá estava ela: minha crônica no site do Algo a Dizer.
Curiosa como sou quis logo ver se alguém tinha feito um comentário, falando como escrevo bem para tão pouca idade ou qualquer outro comentário do tipo. Reli a crônica, que definitivamente era mais um desabafo, mas não me importei afinal ela tinha sido publicada. Eis que no final da página vejo um único comentário. Vibrei por dentro antes de ver seu conteúdo. “Gostaram do que escrevi!” pensei em minha infinita inocência e presunção. Respirei fundo e me coloquei a ler o comentário que continha apenas duas palavras.
“Débil catarse...”

Se eu tivesse um espelho naquele momento aposto que meu rosto pareceria estar derretendo de desgosto. Quer dizer então que escrevi um texto débil? De acordo com o leitor, sim.
Primeiro o xinguei mentalmente apenas para perceber que cada um tem direito à sua opinião, que talvez o texto não passasse mesmo de um desabafo desorganizado e que essa crítica poderia vir a me ajudar. Normalmente o que me causa desconforto é o que mais me ajuda, e eu sei como esse comentário me causou desconforto.
O que percebo é que escrevo para pessoas. Deixei de escrever só para mim quando fiz um blog e comecei a mandar meus textos para revistas, jornais e editoras. Opiniões chegarão e isso é bom, quer dizer que pelo menos alguém lê minhas débeis catarses. Ainda tenho muito que aprender e sei bem que o caminho para onde quero chegar como escritora é longo, talvez mais do que imagino, porém uma crítica que não me agrada e não me faz virar o Pavão que sou me ajuda muito mais que elogios.
A partir de agora fico mais atenta às debiloidices que decido escrever e principalmente publicar. Com exceção desta que aqui posto, é claro.