quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Que coisa esquisita


Andando pela Rua das Laranjeiras, em uma quarta-feira comum e de um calor infernal, de repente me vi com uma raiva que parecia me sufocar. Que coisa mais esquisita. Assim, do nada, enquanto via as pessoas ali, esperando seus ônibus, a moça do carrinho da agua de coco, duas meninas que falavam extremamente alto, me percebi com raiva e com uma sede de matar. Um Guaravita, por favor. Que calor! Que estranho prestar atenção em si mesmo e conseguir nomear um sentimento. Que incomum. Desconforto, talvez? Pelo calor ou pela sensação de pura e simples inadequação, de “será que eu pertenço a esse lugar mesmo?” será que eu pertenço a qualquer lugar que seja? Às vezes era só raiva de sentir mesmo, de sempre sentir tanto e de infelizmente, aprender a nomear alguns sentimentos.
Mas por que será que isso era tão ruim se eu passei tanto tempo sem saber o que eu sentia e tentando desesperadamente descobrir? De onde vem tanto medo? Logo eu que me achava tão corajosa, que enfrentava tudo e todos agora estou aqui, com medo de mim mesma. E o pior era aquele calor insuportável. O Rio de Janeiro está ficando cada vez mais quente ou eu estou ficando cada vez mais estranha? Que coisa mais esquisita.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Parte 4


  No carro à caminho de botafogo conversaram sobre quem estava ficando rico, quem estava empobrecendo, sobre a “Classe-Mérdia” que queimava sem tetos em Brasília e finalmente na futura faculdade. “Pai, o senhor sabe que eu estou me preparando, estudando bastante...” mentira “...esse tempo livre está sendo bem aproveitado, te juro”. Ele pegou sua mão, deu um beijo e disse “Sei que você vai ser grande.” Olívia sentiu uma certa dor por ter mentido, aquela dor pequenininha no peito e a voz da consciência dizendo que deveria parar de mentir sobre a vontade de cursar Direito. Melhor mesmo era deixa-lo feliz. Ele estava ficando velho e doente. Diabetes, pra quem não se cuida pode ser uma doença muito traiçoeira. “Minha mãe anda mais calma?”. Ela andava mais calma sim depois do último imóvel inescrupulosamente caro que havia comprado em Botafogo, as dívidas estavam quitadas e sua única filha encaminhada.  “Graças a Deus! Vou te contar uma história, mas que fique entre nós combinado?” Sim, combinado. “No início do nosso casamento sua mãe era um bicho, eu nem sei como eu aguentava. Teve uma vez que ela estava de TPM, e a mulher de TPM era o demônio, minha filha, o demônio. Era uma briga por causa de dinheiro e ela tentou avançar em mim, ia tentar me bater, nem sei..” Isso deve ter sido engraçado “...quando ela veio para cima dei um empurrão de leve, pra me proteger sabe?! E a doida caiu em cima da cama...” “Ela chorou?” “Chorou nada, arrumou minha mala para eu sair de casa. Fui ver um apart em Ipanema, eu acho. No dia seguinte eu cheguei em casa e descobri que ela tinha tentado se matar, tomou uma cartela de remédio inteira. Mas acabou ficando com uma diarreia monstruosa, filha” os dois estavam rindo muito com essa história. Olívia imaginou sua mãe deitada na cama fazendo um dramalhão, como as atrizes de Hollywood. Aquilo era realmente engraçado. “Levei a mulher pro hospital e fiquei a noite inteira lá enquanto ela tomava soro. Ela ficou desidratada de tanta dor de barriga.
  No dia seguinte, quando a gente voltou pra casa, ela acabou descobrindo do apart. Arrumou duas malas e ficou me esperando voltar do trabalho. Eu cheguei, vi aquilo e pensei ‘que porra é essa? Que quê essa mulher tá aprontando?’ aí ela me vira e diz, cm a  maior cara lavada: “meu amor arrumei nossas malas pra gente ir pro apart em Ipanema! Nós vamos ficar lá dois dias em lua de mel!” “E você foi pai?” “Eu fui né, você sabe como a sua mãe é.. Mas valeu, depois disso a gente ficou um tempo numa boa.” Por essas e outras Olívia era tão apaixonada pelos pais. Ela os achava doidos, e eles eram, mas ela os amava. Nada de contar sobre a faculdade hoje.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Parte 3


Domingo Olívia foi se encontrar com os pais e amigos em um restaurante caro para depois ver o imóvel recém-adquirido do casal. Uma bela casa na Barra da Tijuca em um condomínio de luxo. Como de costume, chegou antes de todos. Observou as pessoas no longe do restaurante enquanto fumava um cigarro, um dos pequenos prazeres da vida. Ela não tirava os olhos de um senhor que, sentado do outro lado da gigantesca mesa de madeira no espaço aberto, tomava um Uísque. Não um copo, mas sim uma garrafa inteira. Talvez aquele beber quase desesperado do senhor fosse uma fuga, imaginou. Ele deve ter uma esposa dessas que pede demais. Bolsas demais, sapatos demais, dinheiro demais, tudo demais. Então foi ao restaurante no domingo ao meio dia, mentindo para a Esposa que iria ao clube, no qual tinha parte da sociedade, para ver o andamento dos negócios. Negócios geram dinheiro, a Esposa não tinha do que reclamar.
A mãe chegou, bem vestida, com óculos escuros grandes demais, com seus sapatos caros e bolsa importada. Última coleção, uma pequena fortuna. Agarrou o rosto da filha, dois beijos estalados nas bochechas e um “Minha querida!”. Seu pai chegou logo depois e deu em Olívia um abraço apertado, de quem sente saudades, e perguntou como estava sua princesa. Os amigos ricaços chegaram, todos comeram e conversaram. As mulheres competiam. Bolsas, filhos e viagens. Os homens falavam sobre negócios e estratégias de mercado, já o pai de Olívia só comia. Um sentado ao lado do outro, comendo muito e apreciando a variedade de carnes que chegava à mesa antes que o último pedaço estivesse terminado. Fim de almoço. O Pai chamou sua princesa em um canto e contou quase como uma confissão  “Não quero ir ver a casa deles não, hoje tem jogo do Vascão. A gente deixa sua mãe lá e eu te dou uma carona para casa. Que tal?”. Vinte minutos para achar o tal condomínio de luxo, explicar à senhora Mãe que ela pegaria uma carona com o Pai para casa, uma bronca e de volta para o conforto do lar. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Parte 2


Olívia vivia em seu mundo escrito, onde era tudo, era todas. Seus vários cadernos empilhados na sala de estar contavam histórias de quando foi uma cantora vivendo no luxo e na riqueza. Tinha tudo que o dinheiro podia comprar mas não tinha dinheiro, ganhava tudo de seus “admiradores” sedentos por um lugar neste tão cobiçado círculo dos artista. Alexandra, a artista, morreu afogada em dívidas e álcool. Já Melinda vivia rodeada de casos sexo-afetivos e amorosos complicados. Conheceu o homem que acreditou ser o amor que sempre procurou, os dois com a crença de um amor livre, sem contrato de exclusividade e na verdade sem cuidado e afeição. Aquele retrato de amor onde ele mesmo não existe, só seu nome encobrindo individualidade, luxúria e carência. Quando Melinda se nota com ciúmes some deixando apenas um bilhete sobre a cama, ao lado de seu amante adormecido:
“ ‘Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí à procurar, rir pra não chorar. Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando me encontrar.’
Talvez isto demore, talvez não volte.
Com amor, Melinda.”

Olívia também foi Margo. Senhora que perdeu seu grande amor muito jovem e decidiu viver enclausurada até que sua neta em uma visita confunde suas pílulas de Ecstasy com os remédios da vó. Margo toma a droga, achando que eram seus remédios, entra em uma viagem e acaba morrendo em um surto psicótico. Margo vive em um quarto com ervas daninhas onde o armário que guardava suas roupas antigas rodopiava e dançava feliz. Quando tentou seguir o armário saltitante pela janela do apartamento que ficava no sexto andar, saltitou para debaixo da terra. Ah, Olívia gostava um pouco de exagerar...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Olívia


Parte 1


Toda vez que ela olhava para um papel em branco a ideia de escrever vinha à sua cabeça. Mas quem leria coisas tão simples e mal descritas? Essa era a dúvida que assombrava a mente de Olivia.
Olivia. Menina quase crescida com muito na cabeça e pouco no olhar, ou até demais no olhar, isso era uma questão de ponto de vista. Tudo parecia se virar à sua volta e ela, pobre menina quase crescida, se via parada. Ponto de vista. Afinal à nossa volta tudo se move mas nós, estando em nossos corpos e com nossos olhos, estamos parados. Mas a sensação de estagnação que parecia mata-la. Correr como maratonista em uma esteira, o simples fato de andar muito e chegar à lugar nenhum. Sim, Olivia sentia grande dor de ficar presa ao chão, mas não seria esse o fardo da sua geração?

Era um dia claro, o sol invadia suas pálpebras fechadas e tornava as cortinas brancas inúteis. Seguindo sua rotina tediosa Olivia fez o de costume. Sua vida certamente não era um dos filmes que tanto adorava. Essa menina não era nenhuma Amelie Poulain. Era rica, de cultura e de dinheiro, mas não era a mulher sofisticada, importante e profunda que desejava.  A menina quase crescida estava vivendo uma fase de férias permanentes desde que passou para a faculdade de Direito que os pais tanto sonhavam e trancou sua matrícula para “descobrir o que a vida poderia apresentar-lhe”. Tinha poucos amigos então passava muito tempo sozinha no lugar que ela fez o mundo: seu apartamento. Um imóvel dos pais que não era alugado há alguns anos, todos sabem bem quanto custa viver no Rio de Janeiro hoje em dia. Demais.
Olivia fazia do nada tudo. Era seu tempo de reflexão. Era para ser um tempo de reflexão, mas, na verdade era tempo de dançar sozinha na sala de estar, passear com o cachorro e ver séries e novelas pensando como seria o mundo lá fora, como seria sua vida lá fora. Talvez a menina não fosse tão rica de cultura como aparentava. Com seus dezenove anos ela tinha tudo que alguém poderia querer, poderia ter qualquer coisa material que quisesse, se não fosse uma grande extravagancia afinal seus pais ainda tinham que educa-la, mas sentia não ter nada. O que tinha, com certeza absoluta, era a sensação de ser apenas matéria. A sensação dos pobres jovens ricos da ausência total e absoluta de alma e motivo.

À noite Olivia se chateava. Toda noite Olivia olhava pela janela, ouvindo a rua, fechava os olhos e se colocava na pele de outros. “São uns imbecis, estúpidos” mas como queria ser estúpida como eles. Seu pai costumava falar que gostaria de ser mais ignorante pois assim seria mais fácil ser feliz. Uma dose de ignorância torna a vida mais fácil. Pensar em como deixar a bunda dura até os cinquenta e qual cumprimento de roupa separa o sexy do vulgar ao invés de pensar incessantemente nos dilemas do universo deve facilitar a vida de qualquer um. A não ser que bunda caída se torne um dilema tão profundo que ocupe todo o espaço e tempo que o cérebro tem disponível. Ainda sim, são maneiras de enxergar o mundo.