domingo, 6 de janeiro de 2013

Olívia


Parte 1


Toda vez que ela olhava para um papel em branco a ideia de escrever vinha à sua cabeça. Mas quem leria coisas tão simples e mal descritas? Essa era a dúvida que assombrava a mente de Olivia.
Olivia. Menina quase crescida com muito na cabeça e pouco no olhar, ou até demais no olhar, isso era uma questão de ponto de vista. Tudo parecia se virar à sua volta e ela, pobre menina quase crescida, se via parada. Ponto de vista. Afinal à nossa volta tudo se move mas nós, estando em nossos corpos e com nossos olhos, estamos parados. Mas a sensação de estagnação que parecia mata-la. Correr como maratonista em uma esteira, o simples fato de andar muito e chegar à lugar nenhum. Sim, Olivia sentia grande dor de ficar presa ao chão, mas não seria esse o fardo da sua geração?

Era um dia claro, o sol invadia suas pálpebras fechadas e tornava as cortinas brancas inúteis. Seguindo sua rotina tediosa Olivia fez o de costume. Sua vida certamente não era um dos filmes que tanto adorava. Essa menina não era nenhuma Amelie Poulain. Era rica, de cultura e de dinheiro, mas não era a mulher sofisticada, importante e profunda que desejava.  A menina quase crescida estava vivendo uma fase de férias permanentes desde que passou para a faculdade de Direito que os pais tanto sonhavam e trancou sua matrícula para “descobrir o que a vida poderia apresentar-lhe”. Tinha poucos amigos então passava muito tempo sozinha no lugar que ela fez o mundo: seu apartamento. Um imóvel dos pais que não era alugado há alguns anos, todos sabem bem quanto custa viver no Rio de Janeiro hoje em dia. Demais.
Olivia fazia do nada tudo. Era seu tempo de reflexão. Era para ser um tempo de reflexão, mas, na verdade era tempo de dançar sozinha na sala de estar, passear com o cachorro e ver séries e novelas pensando como seria o mundo lá fora, como seria sua vida lá fora. Talvez a menina não fosse tão rica de cultura como aparentava. Com seus dezenove anos ela tinha tudo que alguém poderia querer, poderia ter qualquer coisa material que quisesse, se não fosse uma grande extravagancia afinal seus pais ainda tinham que educa-la, mas sentia não ter nada. O que tinha, com certeza absoluta, era a sensação de ser apenas matéria. A sensação dos pobres jovens ricos da ausência total e absoluta de alma e motivo.

À noite Olivia se chateava. Toda noite Olivia olhava pela janela, ouvindo a rua, fechava os olhos e se colocava na pele de outros. “São uns imbecis, estúpidos” mas como queria ser estúpida como eles. Seu pai costumava falar que gostaria de ser mais ignorante pois assim seria mais fácil ser feliz. Uma dose de ignorância torna a vida mais fácil. Pensar em como deixar a bunda dura até os cinquenta e qual cumprimento de roupa separa o sexy do vulgar ao invés de pensar incessantemente nos dilemas do universo deve facilitar a vida de qualquer um. A não ser que bunda caída se torne um dilema tão profundo que ocupe todo o espaço e tempo que o cérebro tem disponível. Ainda sim, são maneiras de enxergar o mundo.




quinta-feira, 29 de março de 2012

Quando acaba o claro


Tristeza quando acaba
A vida.
Claro no escuro do quarto,
Do coração.
Trago do cigarro, peso de uma geração.
Trago no peito a dor de ser ancião,
Jovem demais para ser ancião
Da vida.
Da vida a tristeza vem,
Quando acaba o claro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Devaneio maior que os próprios versos


Os olhos, ao corpo
Dá vida.
A Morte, por ser vida
É dividida.
A vida, por ela mesma
Em tempos morre.
Minha escrita, por pulsar vida
Me percorre.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O ar de quem fomos


Os tempos que se foram correram,
E acho que nem sequer sei como falar
Do que houve conosco.
Ainda começo sem fim
E acabo sem ti.
Começo sem saber começar,
E termino sem saber acabar.
Desta vez não vou sentir raiva,
Ódio ou afeição por qualquer coisa que fomos.
Manterei o ar blasé
De quem não sabe começar.
De quem não sabe terminar.

Mariana Bernardes

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Perdão

Me perdoa,
Por não ser nada do que poderia ser.
Por ter te esquecido enquanto ainda lembrava de ti.
Por ter ido embora sem me despedir.
Me perdoa,
Por não chorar a tua perda.
Por não acreditar que foi embora.
Por não saber como honrar tua lembrança.
Me perdoa,
Pois não consigo mais lembrar de nós,
Não tenho coragem de olhar nossas fotos,
Não sei como dizer adeus.

Adeus.

Mariana Bernardes

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Carnaval

Se a luz apagasse por que já raiou o dia, viveria na escuridão.
O som que foi não volta para o barracão.
As ilusões desaparecem à todo instante,
Isto não é privilegio do carnaval.
A batucada está abaixando.
A madrugada não me traz nenhum amor.
Os instrumentos vão chorar,
O coro irá comer no terreiro,
Depois o carnaval acabará.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Maldito


Maldito és tu que me faz amar.
Maldito seja, desgraçado pela eternidade
De nós dois.
Não há homem nesta terra,
Que viva só de amor.
Maldito seja!
Está sugando o pior de mim.
O que me faz ser melhor,
Não é bondade ou felicidade,
É toda a desgraça que vejo
Em um qualquer me tornar.